Viagem ao Centro do Rio – Final

10/24/2009 por Pafúncio Catifundo, o Ébrio do Cachambi

Boas! Resumo-lhes, aos finalmentes, o último capítulo de minha
prosopopéica desventura.

Pobre Pafúncio, que acreditou piamente, após as agruras sofridas, que o calvário estaria terminado! Desci, silmultânee à uma horda de
desembarcantes, para o que mais parecia um escoadouro humano. Era a escada para a troca de linhas. Me senti como um autômato, andando a passos de miúdo, mas já recuperado da embriaguez, na direção do vão.

Distraído, acabei atropelando uma mulher mais parecida com uma seba, que atravessou-me correndo a frente. A senhorinha gorda tentou contornar-me comigo em movimento. Como, mesmo velho e lanfranhudo, era mais vai veloz que ele, dei-lhe uma topada. Vali-me da minha robusta constituição física armada com muito toucinho e ovo rosado para meter com força os pés no chão e pespegá-la no lombo.

Tal era a falta de espírito da seba que ela varreu o chão da saguão com a boca. Proferiu impropérios, que o bom decoro não me permite relatar aqui, para a minha pessoa. Mas dei de ombros. A seba não disse nenhum que já não o houvessem dito sobre mim antes.

Desci incólume as escadas e me deparei com a massa disforme na
plataforma. Acotovelavam-se perante as linhas amarelas. A seba gritava. Dissimuladamente, me misturei aos esperantes e, oportunamente, me esgueirei para mais perto da porta. No abrir das portas, os mais menos educados poram-se a correr na direção das cadeiras vazias.

Apesar de tudo, entrei sem esforço, mesmo com uma senhorinha a apoiar o cotovelo contra minha coluna, no afã de adentrar ao trem. De pé, segurei no vão do ar-refrigerado. Nisso, um careca suado, cuja cabeça era da altura exata da minha axila exposta, foi empurrado contra mim. Não fiquei enojado. Mas tenho certeza aquele roll-on humano se sentiu mal ao inspirar o nauseabundo odor de três meses sem banho.

Enquanto viajava de volta para casa, o careca em minha axila, resumi mentalmente a história e decidi por compartilhá-la com vocês.

Viagem ao Centro do Rio – Parte III

10/19/2009 por Pafúncio Catifundo, o Ébrio do Cachambi

Como vocês, caros navegantes, podem muito bem rememorar nos escritos abaixo, vivi agruras recentemente no metrô da olímpica Cidade Maravilhosa. Eis, portanto, o penúltimo capítulo de minha desventura.

Após cerradas as portas, me vi outra vez sufucado. Dessa vez, em posição assaz indecorosa ante a anciã a qual salvou-me de ser parido do trem. Porém, a senhora velha e relha sabia tanto quanto eu, que, naquela idade, o máximo que poderíamos oferecer seria um espetáculo bisonho e flácido. Consentiu com a situação evitando, oportunamente, o hálito etílico que exalava de meu ser.

Me distraí pensando na vida quando subitamente, senti uma leve brisa no rosto. Até fechei os olhos para, mentalmente, contemplar aquela agradável vicissitude. Me senti estranhamente livre, principalmente do cheiro de roupa velha e coxinha de boteco da jondra à minha frente. Abri os olhos esperando beleza mas constatei uma cena aterradora. A cagalhota anciã, com suas mãos oleosas e desesperadas em busca de algum suporte, parecia sorvida por um espiral de buraco negro na direção da porta. Logo percebi que tal fenômeno cósmico se aplicava a todos à maioria dos passageiros que velozmente se acotovelavam na direção da porta. Me ative velozmente ao poste visando minha segurança enquanto ela, desprovida de sorte, era carregada aos berros pela torrente humana. Se a idade me permitisse, garanto que sentiria pena dela.

Não domorou para que minha afetada percepção compreendesse que não se tratava de um cataclisma astrofísico. Era apenas a estação da Central do Brasil. Atracado ao gélido poste metálico reparei nos sorrisos dos saintes, uns amarelos, dos avergonhados, e outros sinceros, dos maleducados. Sobrevivi a mais esta prova de força.

Ironicamente, uma doce voz feminina anunciava, enquanto a cicatrizava a outrora fenda espaço-temporal, que as cadeiras azuis e laranjas eram destinadas aos idosos e gestantes. Girei meu pescoço, no espaço que agora era mais folgado, procurando-as e pensei com meus botões:“Mas onde diabos estão as cadeiras que não as vejo?!”

Viagem ao Centro do Rio – Parte II

10/03/2009 por Pafúncio Catifundo, o Ébrio do Cachambi

Depois de longa e agoniosa espera, saldei minha obrigação com a Láite e, com sede depois de três meses de abstinência, resolvi por tomar o metrô na direção da Glória e vadear pela Lapa. Oh, pobre Pafúncio! Diabo de ideia infeliz foi esta. Na alvorada, decidi por retornar ao meu abatedouro, que como chamo meu quarto, pois é lá que abato as células do meu fígado.

Ainda um pouco inebriado, andei a passos de indeciso. Com sorte acertei o buraco de entrada do metrô. Passei pela amaldiçoada roleta, que, no meu afã, acabou por atingir violentamente o meu joelho e desci a escada cuidadosamente para não destrambelhar degraus abaixo.

Me posicionei inocentemente ante uma faixa amarela que não pude ler. A vista cansada e embaralhada. Só me recordo quando uma torrente de seres humanos alçou-se às minhas costas me atirando violentamente contra o vagão lotado. Ali, inerte, não pude resistir a ideia de ficar no aperto. Singido no meu singelo meio-metro, me lembrei das fábulas já ouvidas sobre o metrô e sabia que na gare Central a coisa desaforgava.

Chegando na Uruguaiana, cogitei até ser um chiste do maquinista abrir a porta para uma estação vazia. Mas isso foi porque, totalmente inerte, não puder girar o pescoço e ver que atrás de mim a porta da esquerda também se abria. Eu também pensava que o vagão estava lotado. Aturdido, nem cheguei a percerber que a pressão exercida pelos entrantes estava me empurrando na direção da porta! Rapidamente voltei a mim e me atraquei a uma velha senhora socada entre mim e a barra de metal.

Confesso não ser do tipo religioso. Minha idade não me permite mais esse tipo de esperança. Não lembro se foi para que a velha carcomida se segurasse, se para o maquinista fechasse a porta ou pelo bom senso das pessoas, mas rezei furiosamente para todo tipo de divindade que me veio a embriagada mente àquela hora. Queria estar algures, menos naquela estapafúrdia situação.

Viagem Ao Centro Do Rio – Parte I

10/01/2009 por Pafúncio Catifundo, o Ébrio do Cachambi

Boas!

depois de alguns goles além, hibernei. Sim, dormi durante o inverno todo, esse o real motivo de minha ausência do blog. Não me tornei um féletro, como garanto, queriam alguns. O fato é que ontem despertei, após o álgido inverno e no escuro. Uma trinca de meses absorto nos levos de Orfeu, lêia-se sem pagamento da dívida da eletricidade, a Láite resolveu por me cortar o fornecimento. Justo.

Meu abatedouro – assim que chamo minha alcova, pois é lá onde meus sonhos morrem – estava ao breu, então afogueei meu velho candeeiro, visto que meu quebra-luz não acendia. Saltei da coberta com dificuldade e tateei por alguns cobres em cima do criado-mudo para saldar a cobrança dos nefastos. Juntei os poucos guinéus que me sobravam e iniciei minha desditosa aventura. Tomei uma média com bolachas, calcei meu avelhentado sapato e parti rumo ao centro.

Oh, infeliz ideia foi optar pelo metrô! Na ida estive bem. Com o espaço a que me foi dado, pude viajar confortavelmente a observar calífones de todas as cores em bustos corados. Porém nem Julio Verne poderia imaginar, em seu ápice criativo, as agruras que um velho enfranhudo como eu passou na jornada de volta. Talvez Ulisses, o odisseu, ou Manuel Zelaya, apenas, possam entender o quão difícil foi meu retorno para o lar.

09/11/2009 por Eustáquio José

Pré-Sal: Está aí pra mais uma vez demonstrar que no fundo, no fundo, o Brasil tem muito valor

09/11/2009 por Eustáquio José

Caso vá em um rodízio de pizza acompanhado por uma mulher, para comer. lembre-se de verificar se tem calabreza. A pizza e a mulher.

Da Corrupção e da solução da mesma

08/09/2009 por Pafúncio Catifundo, o Ébrio do Cachambi

Num futuro não muito distante, onde todos falavam chinês e comiam curry, fazia cinquenta anos que não se ouvia uma denúncia de corrupção no país. Os favores, as negociatas, o nepotismo… O que muito tempo atrás eram os demônios da política nacional, quem diria, na verdade, eram a salvação.

- Pois é Mendes, cinquenta anos.
- É verdade. Quase a metade de uma vida. Quem diria que a gente seria mais feliz assim, hein ô Abreu?
- Engraçado né… A gente reclamava, combinava de fazer passeata com o pessoal da faculdade… E nunca fazia nada!
- Ehhh… Acho que no fundo a gente sabia o que ia acontecer.

No início propina era coisa pra pouca gente. Mas com o tempo, os caras que apitavam precisaram subornar uns que mandavam menos pra continuar no comando. E a coisa foi crescendo, crescendo, crescendo…

- Escuta, tô precisando daquele favor lá pra agora, sabe Moacir.
- Que favor, doutor Azevedo? Aquele papel lá com a Ivonilde, da secretaria?
- Exatamente. Preciso que ele suma. Mas não posso ir lá, sabe como é. Vai dar muito na cara… E é prum grande amigo meu. To devendo uma pra ele. Faz isso direito, hein ô Feitosa!
- Deixa comigo, doutor! Mas vai custar aquele por fora de sempre. Isso pode me complicar aqui na repartição.

- Bom dia.
- Bom dia, Ivonilde. Você emagreceu?
- Ah, que isso Feitosa. Mas acho que perdi uns quilinhos sim. Que te trás aqui?
- Pois é. To precisando que você perca também um documento.
- Daquele jeito? Pra não achar mais?
- É.
- Mas você sabe que um papel não pode sumir assim, do nada… Não sabe?
- Sei, sei… ta aqui ó. Mas num abre o envelope aqui não!

- Ô Jovencir! Vem aqui, meu filho!
- Chamô, dona Ivonilde?
- Chamei. Pega essa pilha de papéis aqui e dá um sumiço com isso.
- Como assim?
- Sei lá, homem. Te vira. Mas não pode sobrar nem um pedacinho. Se isso aparece de novo vai ter um forrobodó por aqui.
- Sei, sei… Mas saque é, dona Ivonilde. É que um primo meu ta vindo lá da terrinha, filho da irmã da minha madrasta… Muito pobrezim, coitado. Acho que te falei dele onte.
- Ai, meu Deus, Jovencir… Já vi tudo. Eu vô falar com a Marina. Ela me deve um favor. Mas não esquece hein! Nem um pedacinho!
- Sim, sinhora! Brigado, sinhora!

Assim como é o sexo, é a política. Uma coisa foi levando a outra, a outra já cavou um lugar para um parente na repartição, o parente devia uns favores ao cara da padaria e a coisa foi saindo do controle. O serviço público era uma grande orgia que contava com meninas do café, do copo e do guardanapo.

Foi assim até que, em um senso do IBGE, perceberam que 90% da população trabalhava para o governo ou vivia de atividades que dependiam da máquina pública, como carrocinhas de cachorro quente em frente às repartições, motoboys e lavanderias de dinheiro.

- Menina, você por aqui!? Tá perdida? Precisando de ajuda?
- Não, to trabalhando aqui. Na verdade comecei hoje. Sou Assistente Operacional de Assessoria Júnior.
- É? E o que você vai fazer?
- Pois é, não sei direito. Formei esse ano e tava desempregada, né? Meu pai conhece o seu Lima. Jogavam truco juntos no clube, né? Ele conversou com ele e ele me arrumou esse emprego. O salário nem é tão bom, mas dá pra começar…
- Olha, vou te falar o seguinte. O pessoal aqui andou reclamando que tá faltando papel higiênico no banheiro. Que tal você ficar esperta quanto a isso? Vez ou outra surge uma coisinha mais emocionante e rola um por fora. Aí, dependendo, eu te coloco na fita, pode ser?
- Acho que sim, né?

Com atividade tão lucrativa e pouco desgastante, raramente ouvia-se falar em roubos, assaltos e etc. Até mesmo o tráfico de drogas minguou. A criminalidade caiu, cocaína virou artigo de luxo e maconha era plantada em casa. Na verdade, a maconha foi liberada, ao que parece, depois de um pequeno escândalo envolvendo um senador, uma revista pornográfica e um documentário sobre a importância das “meninas do papel higiênico” nos banheiros da Câmara.

A inflação sumiu e a renda foi lentamente dividida, respeitando o cargo de cada um. O desemprego praticamente desapareceu, ficando restrito a meia dúzia de boavidas. O trabalho de produção ficou para as máquinas e computadores, que tiveram que tomar, às pressas, o lugar dos operários, que debandaram do setor privado para o público. A ONU acabou fazendo um estudo completo do caso brasileiro, que foi batizado ironicamente de “Comunismo de Corrupção”.

Edital

08/04/2009 por Eustáquio José

Alguém acaba de publicar no diário (oficial, de ofício, oficioso e outras instâncias) que estão abertas as vagas para o novo concurso de Poeta do Governo Federal. Para se inscrever o candidato deve apresentar histórico escolar completo (pré-primário ao pós-doutorado). Aceita-se para provimento das vagas os pós-doutores em Psicanálise Lacaniana Greco-Barroca (para entender os determinantes da indeterminação inconsciente da produção poética), Ictiologia (sobre a vida nas profundidade da poesia marítima de Camões), Obstetrícia (vide a complexidade no parir uma poesia), Técnicas marxistas (única maneira de entender que poesia não é pão, não agrega valor e não faz sentido econômico) e finalmente o famoso recém criado pós-doc em práticas circences (esse dispensa comentário). Aguarda-se inscrições.

Texto feito por Carlos Viegas,  funcionário público

07/16/2009 por Eustáquio José

Sinistro mesmo é Jesus, nem tem Twiter e já tem milhões de seguidores…

E aí, sumido?!

07/04/2009 por ET Valdo

Nesse meu pouco tempo de Terra, uma das coisas que mais me irritam é o tal de “E aí, sumido!”. Eu não estou sumido! Eu continuo no mesmo lugar! Se eu não falo com o terráqueo há muito tempo, é porque eu não quis, não deu tempo ou sei lá por quê! Mas, NUNCA, porque eu estava sumido! E por que colocam toda a culpa desses acasos a vida somente em mim? Por que só EU estava sumido? O terráqueo que me fala isso também não falava comigo há muito tempo, tinha lá seus motivos e ele não está sumido, né? Sou eu quem está sumido sozinho… o próximo terráqueo que me falar isso vai receber um delicioso desintegrador estrobocósmico na cabeça!