Num futuro não muito distante, onde todos falavam chinês e comiam curry, fazia cinquenta anos que não se ouvia uma denúncia de corrupção no país. Os favores, as negociatas, o nepotismo… O que muito tempo atrás eram os demônios da política nacional, quem diria, na verdade, eram a salvação.
- Pois é Mendes, cinquenta anos.
- É verdade. Quase a metade de uma vida. Quem diria que a gente seria mais feliz assim, hein ô Abreu?
- Engraçado né… A gente reclamava, combinava de fazer passeata com o pessoal da faculdade… E nunca fazia nada!
- Ehhh… Acho que no fundo a gente sabia o que ia acontecer.
No início propina era coisa pra pouca gente. Mas com o tempo, os caras que apitavam precisaram subornar uns que mandavam menos pra continuar no comando. E a coisa foi crescendo, crescendo, crescendo…
- Escuta, tô precisando daquele favor lá pra agora, sabe Moacir.
- Que favor, doutor Azevedo? Aquele papel lá com a Ivonilde, da secretaria?
- Exatamente. Preciso que ele suma. Mas não posso ir lá, sabe como é. Vai dar muito na cara… E é prum grande amigo meu. To devendo uma pra ele. Faz isso direito, hein ô Feitosa!
- Deixa comigo, doutor! Mas vai custar aquele por fora de sempre. Isso pode me complicar aqui na repartição.
- Bom dia.
- Bom dia, Ivonilde. Você emagreceu?
- Ah, que isso Feitosa. Mas acho que perdi uns quilinhos sim. Que te trás aqui?
- Pois é. To precisando que você perca também um documento.
- Daquele jeito? Pra não achar mais?
- É.
- Mas você sabe que um papel não pode sumir assim, do nada… Não sabe?
- Sei, sei… ta aqui ó. Mas num abre o envelope aqui não!
- Ô Jovencir! Vem aqui, meu filho!
- Chamô, dona Ivonilde?
- Chamei. Pega essa pilha de papéis aqui e dá um sumiço com isso.
- Como assim?
- Sei lá, homem. Te vira. Mas não pode sobrar nem um pedacinho. Se isso aparece de novo vai ter um forrobodó por aqui.
- Sei, sei… Mas saque é, dona Ivonilde. É que um primo meu ta vindo lá da terrinha, filho da irmã da minha madrasta… Muito pobrezim, coitado. Acho que te falei dele onte.
- Ai, meu Deus, Jovencir… Já vi tudo. Eu vô falar com a Marina. Ela me deve um favor. Mas não esquece hein! Nem um pedacinho!
- Sim, sinhora! Brigado, sinhora!
Assim como é o sexo, é a política. Uma coisa foi levando a outra, a outra já cavou um lugar para um parente na repartição, o parente devia uns favores ao cara da padaria e a coisa foi saindo do controle. O serviço público era uma grande orgia que contava com meninas do café, do copo e do guardanapo.
Foi assim até que, em um senso do IBGE, perceberam que 90% da população trabalhava para o governo ou vivia de atividades que dependiam da máquina pública, como carrocinhas de cachorro quente em frente às repartições, motoboys e lavanderias de dinheiro.
- Menina, você por aqui!? Tá perdida? Precisando de ajuda?
- Não, to trabalhando aqui. Na verdade comecei hoje. Sou Assistente Operacional de Assessoria Júnior.
- É? E o que você vai fazer?
- Pois é, não sei direito. Formei esse ano e tava desempregada, né? Meu pai conhece o seu Lima. Jogavam truco juntos no clube, né? Ele conversou com ele e ele me arrumou esse emprego. O salário nem é tão bom, mas dá pra começar…
- Olha, vou te falar o seguinte. O pessoal aqui andou reclamando que tá faltando papel higiênico no banheiro. Que tal você ficar esperta quanto a isso? Vez ou outra surge uma coisinha mais emocionante e rola um por fora. Aí, dependendo, eu te coloco na fita, pode ser?
- Acho que sim, né?
Com atividade tão lucrativa e pouco desgastante, raramente ouvia-se falar em roubos, assaltos e etc. Até mesmo o tráfico de drogas minguou. A criminalidade caiu, cocaína virou artigo de luxo e maconha era plantada em casa. Na verdade, a maconha foi liberada, ao que parece, depois de um pequeno escândalo envolvendo um senador, uma revista pornográfica e um documentário sobre a importância das “meninas do papel higiênico” nos banheiros da Câmara.
A inflação sumiu e a renda foi lentamente dividida, respeitando o cargo de cada um. O desemprego praticamente desapareceu, ficando restrito a meia dúzia de boavidas. O trabalho de produção ficou para as máquinas e computadores, que tiveram que tomar, às pressas, o lugar dos operários, que debandaram do setor privado para o público. A ONU acabou fazendo um estudo completo do caso brasileiro, que foi batizado ironicamente de “Comunismo de Corrupção”.