Chatos

05/30/2012 por

Depois de certa idade você começa a achar tudo meio chato, depois de outra certa idade você começa a achar tudo chato e meio.

Mas chato tem meio?

Qual o meio de chato? A letra “A” já diria o chato das pegadinhas, aquele que sempre quer pegar os outros numa nova que aprendeu ontem, sabe aquele que não pode ouvir falar em “Mário” ou “Alex”. Normalmente é aquele cunhado folgado ou o tio que tem dois filhos pequenos e chatos que quebram seus brinquedos de infância e depois botam a culpa no cachorro.

Cachorro chato, todo cachorro pequeno é chato, eu amo cachorros, mas poodle não é cachorro. Poodle é versão canina da galinha d’angola. E reparem que quanto menor o cão mais ele late, mais atazana a vida das pessoas, parece que ele quer compensar a falta de tamanho com excesso de latidos. Mas nem vou me estender muito falando dos cachorros porque se não vem um chato que ama todos os animais pra me bater.

O chato ativista dos direitos dos animais, ah, esse é lindo! Posta fotos diariamente no facebook sobre como os animais sofrem, é vegetariano (mas come peixe, afinal todo mundo aprendeu assistindo “Madagascar” que peixe pode comer) ,  tem 7 cachorros e 12 gatos no apartamento de 50m² que divide com a mãe que não é ativista e sempre pergunta se ele vai sair pra “brincar com os coleguinhas” quando ele sai para protestar junto com os outros chatos  ativistas.

Todo ativista é chato, todo militante é chato. Sabem por que? Porque se você não concorda com a causa dele, ele te enche até te convencer que ele tá certo. E se você concorda com a causa dele? Ele te enche o saco para ser militante junto. Isso é tão certo quanto ligar a TV num canal aberto e ver um programa do RR Soares.

RR Soares sabe quem é? É um pastor dessas igrejas neo-pentecostais de Deus é Surdo. Chato também. O neo-evangélico é o ativista próJC, é aquele que acha que todo mundo tem que acreditar no que ele acredita, acha que vai salvar sua alma do pecado, vai te livrar do inferno para você morar num lugarzinho, que ele tá alugando a módicos 10% do seu salário, lá no céu. Já perceberam que o capiroto só entra na galera dessas igrejas? Só incomoda eles e que tudo é encosto? Sua mulher te largou? Problema de encosto. Foi demitido? Problema de encosto. Dor na coluna? Problema de encosto, opa, mas isso pode ser mesmo (tum dum disss). Ah, voltando ao RR Soares, sabiam que ele já foi a pessoa que fica mais tempo no ar na tv? Pois é, dados como esse também são coisa de gente chata.

O chato que adora estatísticas, esse aqui é mais um clássico e o maior ícone dessa chatice é o chato dos chatos Galvão Bueno e sua trupe de comentaristas. Já ouvi uma vez que o “Maicon é o jogador mineiro que mais atuou pela seleção brasileira, mais até que o Pelé”. Sério, quem acha maneiro saber uma coisa dessas? Ou que o fulano tocou 458 vezes na bola com o pé esquerdo usando meião branco nos jogos de domingo chuvoso? Que o Botafogo é o time que mais cedeu jogadores para a seleção brasileira?

Botafogo é um caso a parte, a maioria dos botafoguenses que eu conheço é chata. Chato clássico mesmo, aquele de camisa pólo meio surrada, bermuda, sapato mocassim sem meia, mais pra gordinho, que bebe e conta vantagem histórias em voz alta no botequim, que fala cuspindo com aquele bafo de cerveja enquanto os filhos ficam correndo e ele diz: “deixa as criança brincá”. O Botafoguense é chato porque é o espírito do velho reclamão e a negação da situação do time. Ele quer discutir, quer contar vantagem… mas não dá. Só para não dizerem que eu pego no pé dos botafoguenses, também existem torcedores chatos nos outros times. São os botafoguenses que resolveram torcer pro Flamengo, pro Vasco, pro Fluminense… Sorte que são poucos, já fiz essa pesquisa no meu Facebook.

Chatos do Facebook. Esses mereciam um texto a parte, temos de tudo ali dentro: O amante dos animais, o ativista político que não lembra em quem votou na ultima eleição, o crente, o da teoria da conspiração, a fofa, o ativista gay/feminista, o cult, o intelectual de pocketbook, o curtidor, o ególatra, a attention whore, o sofrido, a baladeira, o poeta e por aí vai. Mas o mais chato é aquele que vai no mural dos outros pra reclamar do post deles. Ele é uma mistura do stalker  com o “mal-humorado” e os sem nada pra fazer. Não dá pra entender por que diabos alguém vai perder o tempo indo no seu mural para reclamar de um post seu? Sei lá, vai ler um livro, vai ver tv, ouvir música.

Música. Tem os chatos fãs de bandas chatas. Nada contra o gosto musical dos outros, mas que fãs chatos são chatos isso são. Sou muito mais um fã de Calipso que ouve sua musiquinha ruim na boa do que um fã do Los Hermanos que leva a banda quase como uma religião e quer te enfiar goela abaixo as barbas e as camisas xadrez dos caras. Fato é: O fã chato  de Los Hermanos de hoje é o fã chato de Legião Urbana de ontem e o de Beatles de anteontem. O true metal também é chato, o que só ouve MPB é chato, o pagodeiro de cabelo esquisito é chato…

Seu professor caxias daquela matéria é chato, o síndico do seu prédio é chato, sua vizinha do andar de baixo de 69 anos com corpinho de 75 é chata, o coroa-malhadão-tio-sukita é chato, seu primo pré-adolescente cheio de espinha é chato, sua tia avó que ainda te pergunta se já arrumou namorada(o) é chata, seu colega de trabalho que trabalha mais que você é chato, seu colega de trabalho que trabalha menos que você é chato (e preguiçoso), seu chefe é chato (e muito), aquela banda favorita de todo mundo que ninguém nunca ouviu falar é chata, sua ex-namorada é chata (e louca), seu ex-namorado é chato (e imaturo), o gordo que ocupa mais espaço no banco do ônibus é chato, a velha que anda devagar nas calçadas pequenas de Botafogo atrapalhando as outras pessoas é chata, atendente de telemarketing é chata, esse texto é chato, eu sou chato, você é chato, todo mundo é chato igual. Mas como diria o chato do Humberto Gessinger: “Mas uns mais iguais que os outros…”

02/10/2012 por

O tempo voa porque pega carona nas asas da imaginação

Festa Gramatical

11/08/2011 por

Era uma Festa Gramatical.

Ele intransitivo, ela cheia de predicados.

Encontraram-se meio que por acaso; talvez tenha rolado uma certa paronímia.

O ébrio cavalheiro, catecrético, notou a hiperbólica alegoria da moça.

Ela, disfemimicamente, apenas sorriu.

Mal o denotava.

Ele queria porque a queria… ainda bem já que os artigos eram bem definidos ali, em gênero e número!

Tratou logo de chegar adjunto, com jeitinho eufêmico.

Com seu olhar frio, a Sinestesia percebeu a ação do Pleonasmo naquela dupla de dois.

Observando também, o Epizêuxis veio, veio, veio e chegou perto, mas preferiu chamar o Polissíndeto, já que esse entende de paixões e de flertes e de amores e de ficadas e de beijos…

Ele, se achando mais-que-perfeito, desandou a ser subjuntivo;

Ela, elíptica, escondeu algo de seu pretérito.

(Soube-se mais tarde que no pretérito dela havia um sujeito oculto para quem suas orações eram coordenadas)

Ele, perante tal dama, disse: Entre
Ela: Após?
Ele:Com?
Ela:Sob?
Ele:Sobre
Ela: Contra
Ele: Dê!
Ela: Para Trás!

Enfim, radical e num surto que mais parecia um ataque com um objeto direto nela, onomatopéias voando, zoomorfização virando vírgula, mandando tomar no anacoluto…

Em meio à conjunção temporal num copo d’água, ela conclusiva, ele explicativo, ela causal, ele prolixo, ela lacônica, ele sorri, ela sorri, ele a abraça, ela o abraça, eles se beijam…

E no final de toda essa confusão, perceberam que era ela Imperfeita e ele Imperativo.

Um bloco

06/24/2010 por

Sim, a poesia
concretista é
todo o poema
com os versos
arrumados em
um bloco lírico.

Alagados

06/24/2010 por

Eu alago
Tu alagas
Ele alaga

Nós alagamos
Vós alagais
Eles alagoas

Coisas…

06/23/2010 por

Conto Contos contados
Animados, animais e ademais fulgaz, fulgazes, porque nas fases, fazes.
Quase!
Ainda bem, que tem e aquém daquilo que te convém, meu bem.
Ok
Já sei, já me mandei, porque a Casa do Rui rui,
então fui…

Êsses Ésses

02/11/2010 por

A sala saiu
Assim Assado
Só Sassaricando
No Samba
Sacou?
Sabia…
Sinceramente?
Sei lá…
Sessenta?
Sim
Séculos?
Sai pra lá!
Safado…
Sacana…
Saiu…
O Samba Saiu…

Viagem ao Centro do Rio – Final

10/24/2009 por

Boas! Resumo-lhes, aos finalmentes, o último capítulo de minha
prosopopéica desventura.

Pobre Pafúncio, que acreditou piamente, após as agruras sofridas, que o calvário estaria terminado! Desci, silmultânee à uma horda de
desembarcantes, para o que mais parecia um escoadouro humano. Era a escada para a troca de linhas. Me senti como um autômato, andando a passos de miúdo, mas já recuperado da embriaguez, na direção do vão.

Distraído, acabei atropelando uma mulher mais parecida com uma seba, que atravessou-me correndo a frente. A senhorinha gorda tentou contornar-me comigo em movimento. Como, mesmo velho e lanfranhudo, era mais vai veloz que ele, dei-lhe uma topada. Vali-me da minha robusta constituição física armada com muito toucinho e ovo rosado para meter com força os pés no chão e pespegá-la no lombo.

Tal era a falta de espírito da seba que ela varreu o chão da saguão com a boca. Proferiu impropérios, que o bom decoro não me permite relatar aqui, para a minha pessoa. Mas dei de ombros. A seba não disse nenhum que já não o houvessem dito sobre mim antes.

Desci incólume as escadas e me deparei com a massa disforme na
plataforma. Acotovelavam-se perante as linhas amarelas. A seba gritava. Dissimuladamente, me misturei aos esperantes e, oportunamente, me esgueirei para mais perto da porta. No abrir das portas, os mais menos educados poram-se a correr na direção das cadeiras vazias.

Apesar de tudo, entrei sem esforço, mesmo com uma senhorinha a apoiar o cotovelo contra minha coluna, no afã de adentrar ao trem. De pé, segurei no vão do ar-refrigerado. Nisso, um careca suado, cuja cabeça era da altura exata da minha axila exposta, foi empurrado contra mim. Não fiquei enojado. Mas tenho certeza aquele roll-on humano se sentiu mal ao inspirar o nauseabundo odor de três meses sem banho.

Enquanto viajava de volta para casa, o careca em minha axila, resumi mentalmente a história e decidi por compartilhá-la com vocês.

Viagem ao Centro do Rio – Parte III

10/19/2009 por

Como vocês, caros navegantes, podem muito bem rememorar nos escritos abaixo, vivi agruras recentemente no metrô da olímpica Cidade Maravilhosa. Eis, portanto, o penúltimo capítulo de minha desventura.

Após cerradas as portas, me vi outra vez sufucado. Dessa vez, em posição assaz indecorosa ante a anciã a qual salvou-me de ser parido do trem. Porém, a senhora velha e relha sabia tanto quanto eu, que, naquela idade, o máximo que poderíamos oferecer seria um espetáculo bisonho e flácido. Consentiu com a situação evitando, oportunamente, o hálito etílico que exalava de meu ser.

Me distraí pensando na vida quando subitamente, senti uma leve brisa no rosto. Até fechei os olhos para, mentalmente, contemplar aquela agradável vicissitude. Me senti estranhamente livre, principalmente do cheiro de roupa velha e coxinha de boteco da jondra à minha frente. Abri os olhos esperando beleza mas constatei uma cena aterradora. A cagalhota anciã, com suas mãos oleosas e desesperadas em busca de algum suporte, parecia sorvida por um espiral de buraco negro na direção da porta. Logo percebi que tal fenômeno cósmico se aplicava a todos à maioria dos passageiros que velozmente se acotovelavam na direção da porta. Me ative velozmente ao poste visando minha segurança enquanto ela, desprovida de sorte, era carregada aos berros pela torrente humana. Se a idade me permitisse, garanto que sentiria pena dela.

Não domorou para que minha afetada percepção compreendesse que não se tratava de um cataclisma astrofísico. Era apenas a estação da Central do Brasil. Atracado ao gélido poste metálico reparei nos sorrisos dos saintes, uns amarelos, dos avergonhados, e outros sinceros, dos maleducados. Sobrevivi a mais esta prova de força.

Ironicamente, uma doce voz feminina anunciava, enquanto a cicatrizava a outrora fenda espaço-temporal, que as cadeiras azuis e laranjas eram destinadas aos idosos e gestantes. Girei meu pescoço, no espaço que agora era mais folgado, procurando-as e pensei com meus botões:“Mas onde diabos estão as cadeiras que não as vejo?!”

Viagem ao Centro do Rio – Parte II

10/03/2009 por

Depois de longa e agoniosa espera, saldei minha obrigação com a Láite e, com sede depois de três meses de abstinência, resolvi por tomar o metrô na direção da Glória e vadear pela Lapa. Oh, pobre Pafúncio! Diabo de ideia infeliz foi esta. Na alvorada, decidi por retornar ao meu abatedouro, que como chamo meu quarto, pois é lá que abato as células do meu fígado.

Ainda um pouco inebriado, andei a passos de indeciso. Com sorte acertei o buraco de entrada do metrô. Passei pela amaldiçoada roleta, que, no meu afã, acabou por atingir violentamente o meu joelho e desci a escada cuidadosamente para não destrambelhar degraus abaixo.

Me posicionei inocentemente ante uma faixa amarela que não pude ler. A vista cansada e embaralhada. Só me recordo quando uma torrente de seres humanos alçou-se às minhas costas me atirando violentamente contra o vagão lotado. Ali, inerte, não pude resistir a ideia de ficar no aperto. Singido no meu singelo meio-metro, me lembrei das fábulas já ouvidas sobre o metrô e sabia que na gare Central a coisa desaforgava.

Chegando na Uruguaiana, cogitei até ser um chiste do maquinista abrir a porta para uma estação vazia. Mas isso foi porque, totalmente inerte, não puder girar o pescoço e ver que atrás de mim a porta da esquerda também se abria. Eu também pensava que o vagão estava lotado. Aturdido, nem cheguei a percerber que a pressão exercida pelos entrantes estava me empurrando na direção da porta! Rapidamente voltei a mim e me atraquei a uma velha senhora socada entre mim e a barra de metal.

Confesso não ser do tipo religioso. Minha idade não me permite mais esse tipo de esperança. Não lembro se foi para que a velha carcomida se segurasse, se para o maquinista fechasse a porta ou pelo bom senso das pessoas, mas rezei furiosamente para todo tipo de divindade que me veio a embriagada mente àquela hora. Queria estar algures, menos naquela estapafúrdia situação.


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.